sexta-feira, 19 de agosto de 2011



três meses estaremos tão adiantados quanto ele se propunha
caso tudo corresse bem. O que não impede que estas aulas
de grego no coração de Amsterdam, em pleno bairro judeu,
numa tarde muito quente e opressiva, tendo na cabeça a
ameaça de muitos exames difíceis a passar frente a professores ardilosos e muito doutos, te deixem mais indisposto
que os campos de trigo do Brabante, que devem estar intensamente belos num dia como este (103).
Amsterdam, 18 de agosto de 1877
Acordei cedo e vi os operários chegarem ao canteiro
de obras, sob um sol magnífico. Você teria gostado de ver
o aspecto peculiar deste rio de personagens negros, grandes2 5
e pequenos, primeiro na rua estreita onde ainda havia muito
pouco sol, e a seguir no canteiro. Depois disto me alimentei de um pedaço de pão seco e um copo de cerveja; é uma
maneira, recomendada por Dickens àqueles que estão a
ponto de se suicidar, como sendo particularmente indicada
para desviá-los ainda durante algum tempo deste projeto.
E mesmo que não se esteja totalmente com esta disposição
de espírito, é bom fazê-lo de vez em quando, pensando no
quadro de Rembrandt, Os Peregrinos de Emaús  (106).
Amsterdam, 9 de janeiro de 1878
C. M.* perguntou-me hoje se eu não achava bela a
Phryné de Gérôme. Eu lhe disse que me dava infinitamente
mais prazer olhar uma mulher feia de Israels ou de Millet
ou uma velha mulher de Ed. Frère, pois afinal o que significa um belo corpo como o desta Phryné? Isto os animais
também têm, talvez até mais do que os homens, mas uma
alma como a que existe nos homens pintados por Israels,
Millet ou Frère, isto os animais não têm, e a vida não nos
teria sido dada para enriquecer nossos corações, mesmo
quando o corpo sofre?
Quanto a mim, sinto muito pouca simpatia por esta
imagem de Gérôme, pois não vejo nela o mínimo sinal revelador de inteligência. Mãos que carregam as marcas do
trabalho são mais belas que mãos como as desta imagem.
Maior ainda é a diferença entre tal moça e um homem
como Parker ou Tomás de Kempis, ou como os que pintava
Meissonnier; da mesma maneira que não se pode servir
dois mestres ao mesmo tempo, não se pode gostar de coisas tão diferentes e sentir por elas a mesma simpatia.
C. M. me pergunta então se uma mulher ou uma moça
que fossem belas não me agradariam, mas eu lhe disse que
me sentiria melhor e combinaria mais com uma que fosse
*Abreviação do nome de um tio de Vincent, Cornelius-Marinus, chamado
às vezes também de tio Cor. (N. do E.)2 6
feia, velha ou pobre, ou infeliz, por qualquer razão, mas que
tivesse alcançado a inteligência e uma alma pela experiência
de vida e pelas provações ou desgostos (117).
Amsterdam, 3 de abril de 1878
Voltei a refletir sobre a nossa conversa, e involuntariamente meditei nas palavras: “Somos hoje o que éramos ontem”. Isto não significa que se deva marcar passo, e não tentar
desenvolver-se, ao contrário, há uma razão imperiosa para
fazê-lo e para buscá-lo.
Mas para permanecermos fiéis a estas palavras, não
podemos recuar, e quando começamos a considerar as coisas com um olhar livre e confiante, não podemos voltar atrás
e nem hesitar.
Os que diziam “nós somos hoje o que éramos ontem”
eram “homens honrados”, o que se depreende claramente
da constituição que redigiram, que subsistirá por todos os
tempos, e da qual se disse que tinha sido escrita “sob as emanações do céu” e “com uma mão de fogo”. É bom ser um
“homem honrado” e procurar sê-lo cada vez mais, e fazemos
bem em acreditar que para isto é preciso ser “homem
introspectivo e espiritual”.
Se tivéssemos a convicção de pertencer a esta categoria, seguiríamos nosso caminho com calma e confiança,
sem duvidar do bom resultado final. Havia um homem que
certo dia entrou numa igreja e perguntou: “Será possível
que o meu zelo tenha me enganado, que eu tenha tomado o
mau caminho e que continue errado? Ah! Se eu me livrasse
dessa incerteza e se pudesse ter a firme convicção de que
acabaria por vencer e alcançar êxito”. E uma voz então lhe
respondeu: “E se tivesses essa certeza, que farias então?
Faças portanto como se a tivesses, e não serás perturbado”.
O homem então continuou seu caminho, não mais incrédulo
mas crente, e voltou à obra, sem duvidar nem hesitar mais

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