Eu
escrevia ainda outro dia a nossa irmã que a vida inteira, ou pelo menos
quase, busquei o exato contrário de uma carreira de mártir, para a qual
não sou talhado.
3 de maio de 1889
Eu “me atrapalhei” na
vida e meu estado mental não somente é como também foi abstraído, de
forma que independentemente do que fizessem por mim, eu não posso pensar
em equilibrar minha vida. Quando eu tenho que seguir uma regra como aqui no hospício, sinto-me tranqüilo.
2 de maio de 1889
Não sou um admirador do Cristo no horto das oliveiras de Gauguin, do
qual ele me mandou um esboço. Sobre o de Bernard, não sei, mas ele me
prometeu uma fotografia. Todavia, temo que essas composições bíblicas me
façam desejar outras coisas. Nestes dias, vi mulheres recolhendo as
azeitonas: não há nenhuma possibilidade de tê-las como modelos, não fiz
nada com elas. Mas me perguntei se era boa a composição de Gauguin;
quanto ao amigo, Bernard, provavelmente jamais tenha visto uma oliveira.
Ele renuncia a elaborar uma mínima idéia da realidade das coisas, e
esse não é o meio de chegar a uma síntese. Não, nunca vou me intrometer
com as composições bíblicas deles.
novembro de 1889
Bernard me enviou as fotos de suas telas: o que têm é que são espécies de sonhos e de pesadelos.
sem data (1889)
Estou lutando com um quadro que comecei alguns dias antes da minha
recaída, um ceifeiro; o estudo é amarelo, terrivelmente empastado, mas o
ponto de partida era bonito e simples. E agora vi nesse ceifeiro - vaga
figura que luta contra o demônio sob o sol para concluir o seu trabalho
-, vi nele a imagem da morte, no sentido de que a humanidade seria o
grão que é ceifado. Portanto - se você quiser -, é a antítese daquele
semeador que eu pintei antes. Mas nessa morte não há nada de triste,
tudo acontece em plena luz, com um sol que inunda tudo numa luz de ouro
refinado.
setembro de 1889
(a tradução de algumas das cartas é de Pierre Ruprecht,
extraída de Vincent Van Gogh, Cartas a Théo,
Porto Alegre, L&PM, 2002)
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